Dia 86 – 2279 km – Pedalando no Norte da Carretera Austral, Região dos Lagos Chilena e Cruzando a Cordilheira dos Andes de volta para a Argentina – Parte I

Parque Nacional Nahuel Huapi em Bariloche

A cidade de Coyhaique no Chile foi uma boa pedida para um descanso prolongado durante de uma semana enfermo, tranquila e organizada, conta com wifi gratuito em praças publicas, hospitais, lojas de todos os tipos de equipamentos e bicicletarias, mas com seus 50.000 habitantes esta foi uma cidade complicada para achar uma hospedagem com um preço acessivel. Por ser fora de temporada quase todos os albergues e campings estavam fechados, foi então que decidi pela primeira vez perguntar ao corpo de bombeiros por um local para colocar a barraca e acampar, o que para minha surpresa foi negado.

Após muita procura encontrei a hospedagem Lautauro de um simpático senhor que viajou por muito tempo pela América do Sul inclusive viveu um tempo no Brasil, falava português e me deixou acampar no quintal de sua hospedagem por 2000 pesos chilenos dia, podendo utilizar cozinha, banheiro com água quente e etc.

Enquanto esperava melhorar conheci toda a cidade e interessantes pessoas como o Marco, o dono de um circo que estava em turne na cidade que após muita conversa e interesse pela minha história me convidou para um de seus espetaculos totalmente de graça. A quanto tempo eu não ia ao circo!

Quando fiquei melhor, por recomendação de muitos e devido ao mal tempo optei por ir de onibus a cidade de La Junta para finalmente voltar a pedalar! Ainda no ônibus pude presenciar um dos maiores atos de bondade de toda a viagem, uma senhora chamada Claudina que estava acompanhada de seu marido começou a conversar comigo e após 15 minutos de papo me ofereceu hospedagem de graça em sua calorosa casa. Após um ótimo chá com bolachas, um delicioso bolo de chocolate e horas de conversa pude dormir em uma cama quente daquelas com mais de 5 cobertas, uma das melhores noites da viagem! De manhã me despeço com todas as palavras de agradecimento que sei em espanhol e sigo viagem.

Finalmente de volta à bike no Norte da Carretera Austral

Apesar do mal tempo logo nas primeiras pedaladas fiquei bobo com tamanhã beleza, é incrível a diferença da paisagem de um lado para o outro da cordilheira dos Andes. Nesta região do Chile a vegetação é riquissima e a água é abundante, pude até abandonar uma das minhas garrafas pet pois de poucos em poucos quilometros se chega a uma cachoeira, um lago ou um rio.

As folhas da Carretera com mais de 1 metro e meio de diâmetro

Empolgado estava em um rítimo incrível mas no meio do caminho, logo após entrar na região X comecei a sentir uns saltos na pedalada seguidos por um barulho estranho, ao parar para analisar o que tinha se passado ví que um dos gomos da corrente havia quebrado de uma forma que não conseguia mais encaixa-lo e tive que remove-lo, encurtando a corrente. O bom que foi um reparo rápido e não impediu de alcançar minha meta, chegar a Villa Santa Lucia.

Pausa na empolgação para arrumar a corrente quebrada.

Eram 16 horas quando ví a placa de Santa Lucia, uma vila bem pequena e sem muito o que fazer, logo fui a procura de uma hospedagem e encontrei um ótimo lugar onde se faziam pães caseiros e que pude colocar minha barraca por 1000 pesos chilenos.

No outro dia acordei bem cedo e queria chegar em El Amarillo, a chuva não dava tregua e a saída de Santa Lucia tem uma subida barra pesada de rípio ruim que eu desconhecia o que me fez optar por parar em Puerto Cardenas, uma decisão feliz pois todo meu equipo e roupas estavam encharcados e dali só restavam 10km para iniciar o Asfalto. Me dei ao luxo de acordar na manhã seguinte só as 11 horas e tomar com calma um excelente café pois o trajeto até Chaiten seria moleza.

Placas que me deixam muito feliz!

Foram 4 horas pedalando de Puerto Cardenas até Chaiten e a mais de 10km da cidade já pude observar os sinais do vulcão que destruiu a cidade em 2008, todo o acostamento da estrada e as beiras dos rios estão cobertos pelas cinzas expelidas à 2 anos.

Chegada à Zona Zero - Cero luz, Cero agua y Cero Apoyo del Gobierno

Depois da erupção do vulcão a cidade que possuía seus quase 5000 habitantes virou uma cidade fantasma devido a não restauração do fornecimento de água e luz pelo governo, uma tentativa mal sucedida de expulsar qualquer um que queira alí viver já que 300 habitantes apaixonados por sua cidade continuam seus negócios como hospedagens, mercados e até uma danceteria que só abre uma vez por semana. Tudo à base de geradores a diesel e água bombeada de rios locais.

Os trabalhos de reconstrução caminham a passos de tartaruga financiados por um curto recurso provido pelo antigo governo municipal.

Fiquei três dias na cidade pois a embarcação que me levaria até Puerto Montt passou por um problema e sua partida foi adiada. Confesso que é tenebroso sair a noite pelas ruas dessa cidade, em uma das oportunidades que fui à noite comprar comida no mercado local (um dos mais caros de toda a viagem) fiquei meio perdido pois a hospedagem estava a umas 20 quadras e não existe absolutamente nenhuma luz, só centenas de casas abandonadas e iluminadas pela lua fraca acima do ceu nublado.

No dia 08/05 pela manhã a enorme embarcação chegou e pude seguir até Puerto Montt, a maior cidade da Patagônia com seus 300.000 habitantes onde voltei a ouvir pela primeira vez desde que saí de São Paulo conselhos à respeito da segurança da bicicleta.

Normalmente turistas que vão a Puerto Montt estão alí para aguardar algum dos varios barcos que seguem ao Sul pelos canais chilenos, porem seguindo as dicas do meu downloadeado Lonely Planet pude comer um delicioso salmão na mantequilla no Mercado Municipal da cidade com direito a vista para o Vulcão Calbuco e servir peixes para uma familia de leões marinhos que alí vivem. Outra coisa muito interessante na cidade é a Feira de Artesanato de Angelmo, com artefatos de todos os lugares do Chile.

Depois de 2 dias na cidade o tempo finalmente ficou bom e pude, ainda indeciso sobre qual caminho tomaria para voltar a Argentina, seguir viagem ao Norte. Pesquisando na internet descobri que o caminho mais interessante seria ir até Petrohue e cruzar os lagos Todos los Santos, Laguna Frias e Nahuel Huapi para então chegar a Bariloche. Acontece que o valor dos barcos para fazer essa travessia custaria 230 doláres algo fora do meu budget, de qualquer forma descobri que se estivesse vindo de Bariloche em direção ao Chile existe uma promoção da alta temporada para ciclistas onde só se paga 80 doláres.

Foram 20 km muito fáceis até a lindíssima cidade de Puerto Varas, a estrada é excelente e sempre seguida de um grande acostamento, comi em um restaurante e depois fazer uma pequena ciesta segui caminho até Ensenada. Iria acampar em algum lugar no meio do caminho.

Já eram 18 horas e ainda não conseguia pensar em algum lugar à não ser a beira do Lago Llanquihue (segundo maior do Chile, tão grande que de algumas partes não se pode ver a outra extremidade) para acampar, o que é proibido de acordo com as placas da estrada e optei por ao inves de dizer que não compreendia espanhol parar em um posto Gendarmeria Chilena para pedir autorização, que foi devidamente concedida com uma troca de um pequeno favor proposto pelo capitão, o de varrer um dos galpões da Gendarmeria. Um preço justíssimo em troca de hospedagem à beira do belíssimo Vulcão Osorno.

Dormindo aos pés do Osorno

Passados alguns quilometros de Ensenada cheguei a base do Osorno e por recomendação dos Guardaparques optei por deixar meus equipamentos guardados com eles e subir até o ponto mais alto em que automóveis podem ir à 1300 metros de altitude.

Subidas Fortes Proximos 12Km, obrigado por avisar!

Foram 2 horas subindo na marcha mais Chicken da minha bike até chegar aos 1300 mts, uma dificil mas gratificante demonstração de como seriam os 22km do Paso Internacional Cardenal Samore que eu teria que fazer em alguns poucos dias com todos os meus equipos.

A belíssima vista do Vulcão Calbuco à partir do Osorno (pedalando até passar as nuvens).

Descer é que foi uma maravilha!

Caracoles do Osorno. Descer 12km em 15 minutos não tem preço.

De volta à base segui meu caminho rumo a cidade de Entre Lagos, sempre pedindo com sucesso para acampar nas fazendas ao longo da lindíssima ruta dos lagos no Chile, um dos lugares mais bonitos que pedalei.

Acontece que alguns muitos trechos estavam em reforma pesada, pois por ser uma ruta muito popular para o turismo o governo chileno à estava transformando de rípio para asfalto.

E eu achando que o rípio que era ruim...

Sobrando só a lama para mim.

1 dia de Chuva + Estrada em Construção

O governo do Chile faz tudo pelo social.

"Pequeño Sacrificio" por que não é ele que ta carregando 60kg numa bicicleta.

O engraçado é que eu estava tão encantado com o bom tempo, paisagens, animais, lagos e as pessoas que nem liguei para as condições da estrada.

No dia 13/05 cheguei a base do Passo Internacional Cardenal Samore onde iniciei às 16 hrs a subida de 22km até os 1321mts, termineando às 19:00 com o dia já no fim.

Feliz chegada ao topo do Paso Cardenal Samore!

Ainda em um estaado de extase por ter conquistado o topo fui surpreendido por uma neve fortíssima e tomei uma das decisões mais estupidas de toda a viagem, descer na escuridão total só com a minha headlamp, graças a isso por varias vezes fui surpreendido por carros que sem me ver tentavam na contra-mão ultrapassar os mais lentos no sentido contrário.

Chegando na base, agora no lado Argentino, faço os tramites alfandegários e saio a procura de algum lugar ao lado da estrada para acampar em uma das noites mais frias da viagem.

Pista Escorregadia = Varios tombos (Rumo Villa La Angostura)

Amanhace um dia belíssimo e sigo rumo a Villa La Angostura por uma pista totalmente congelada. Aqui os caminhoneiros tem que ter nervos de aço, o que ví de caminhão saindo da pista e invadindo o acostamento por inteiro não foi brincadeira.

Em um rítimo muito bom sigo passando pelo Lago Espejo e Villa La Angostura. Já no fim do dia posso avistar a cidade de Bariloche ao outro lado do Nahuel Huapi mas ainda restavam mais de 30km param serem percorridos em 1 hora de luz portanto optei por acampar abaixo de mais um belíssimo por do sol nos pampas.

Another beautiful night on the side of the road.

Acordo tarde para variar e espero até que a barraca se descongele para seguir pedalando com uma sensação de felicidade enorme até San Carlos de Bariloche (cidade incialmente planejada para terminar a minha viagem), é uma pena que o trafego de automóveis seja muito grande nessa região, os últimos 5 km fui obrigado a pedalar pelo terrivel acostamento de pedras soltas da Ruta 237.

Dia lindíssimo na chegada à San Carlos de Bariloche.

Devido aos muitos dias sem escrever vou dividir este post em duas partes, na próximo conto como foi a semana em Bariloche, a ida até Cipolleti passando pelas cidades de Piedra del Aguilla e Neuquen, e os ultimos 15 dias em Buenos Aires.

Abraços a todos!

Dia 17 – 498 km – Cruzando o Estreito de Magalhães rumo a Capital da Patagônia no Chile

Como de costume saímos muito tarde do hostel de Rio Grande, por volta das 14:00. Na periferia da cidade avistamos o monumento em homenagem aos mortos na Guerra das Malvinas, paramos para tirar umas fotos e logo vieram os primeiros curiosos. Dessa vez eram veteranos da guerra que estavam ao lado construindo uma tenda para um festival que aconteceria em memoria aos 20 anos da guerra. Ali mesmo tivemos uma aula sobre o monumento, contada por ninguém  menos dos que estiveram lá. Tiramos fotos, contamos sobre nossa viagem e saímos em direção a Ruta 3, como sempre com muito vento contra.

Pedalamos até o sol começar a se por e encontramos a belíssima Estância Violeta, pouco menos de 30km ao norte da cidade de Rio Grande. Batemos palmas e logo saiu um senhor meio desconfiado que após explicarmos sobre a viagem nos concedeu uma casa ao lado da sua que estava em reforma, com aquecedor, fogão, banheiro. Mesmo assim preferimos montar as barracas do lado de fora pois o céu estava fantástico (é impressionante velo de um lugar pouco iluminado com tão pouca poluição, parece mais um planetário).

Saímos cedo e os ventos tinham dado uma trégua, ainda restavam 60km até a fronteira com o Chile e apertamos o passo, mesmo assim fomos alcançados pelo francês que estava hospedado no mesmo hostel em Rio Grande e passamos a pedalar em trio. Durante a pedalada avistamos aqueles extratores de petróleo old-style e na hora de chegar perto para tirar uma foto a primeira queda da bike (Dica Óbvia: Nunca saia de uma via asfaltada para o rípio com velocidade superior a 20km com uma bicicleta pesando 50kg, a chance de dar merda é altíssima) de qualquer forma só ganhei uns arranhões na mão já toda cortada pelo frio. Pedalamos por mais algumas horas e chegamos finalmente a cidade de San Sebastian da Argentina, o Chile possuí uma San Sebastian também do outro lado igualmente pequena só para os tramites fronteiriços Ganhei meu primeiro carimbo chileno e continuamos o pedal, recebemos uma informação de outros ciclistas que esta estrada possui vários abrigos então continuamos pedalando pelo rípio até acha-los, avistamos ao lado da estrada os resquícios da disputa da Terra do Fogo, alguns quilômetros de campos minados.  Chegamos ao primeiro abrigo, uma casa muito simples só com teto, sem janelas ou portas (que descobrimos depois que foram todas roubadas) e tentamos sem sucesso fazer uma fogueira pois as madeiras estavam todas molhadas então resolvemos usar os fogareiros para fazer obviamente o arroz hermoso.

Acordamos bem cedo a ponto de ver o sol nascer, numa tentativa inútil de evitar o vento que sabíamos que seria forte. Fazia muito sol mas o rípio estava todo enlamaçado por causa da forte chuva do dia passado e um vento que nunca havia visto na minha vida vinha na nossa cara. Achei que seria difícil encontrar uma situação tão ruim quanto foi a Serra dos Lima (trecho do Caminho da Fé em Minas Gerais que completei no ano passado), mas esse vento da patagônia é de matar. Foram 30km de puro sofrimento, nas subidas mais leves tínhamos que empurrar a bicicleta e nas decidas pedalávamos com muito esforço e marchas mais leves para atingir uns 6km/h. Ao avistarmos um outro abrigo optamos por pedir carona para algum caminhoneiro (nestas condições levaríamos no mínimo três dias para percorrer 100km até o Estreito de Magalhães). Dito e feito, após umas tentativas e o dia quase se pondo conseguimos uma carona com o Guilhermo, um caminhoneiro que carregava madeira para a nossa cidade de destino. Após 1 hora de conversa dentro do caminhão chegamos a simpática cidade de Porvenir, 15.000 habitantes e nos hospedamos no Hostel Central por 15000 pesos chilenos.

No outro dia fomos dar um giro pela cidade e comer o prato típico recomendado pelo Guilhermo chamado Peixe-Rei acompanhado da cerveja Austral (tudo uma delicia, prato recomendadíssimo). Às 15:00 nos dirigimos ao Ferry Boat que saí todos os dias às 17:00 rumo a cidade de Punta Arenas, do outro lado do Estreito de Magalhães. O preço é 5100 pesos chilenos e as bicicletas não pagam nada. Na saída tivemos a presença de muitas gaivotas e golfinhos.

Após 2 horas chegamos ao outro lado do Estreito e no porto de Punta Arenas avistamos as fragatas que estão participando da Regata Velas Sudamérica. Desembarcamos e fomos logo visitar o navio veleiro do Brasil, chamado de Cisne Branco. Ao chegarmos os marinheiros avistaram as bikes com as bandeiras e logo nos convidaram para conhecermos o interior do veleiro, tudo é muito lindo e novo. O barco foi construído na Holanda e entregue ao Brasil em 2000.

Conversamos muito com os tripulantes, ganhamos boné, livros da marinha e alguns até arriscaram uma volta na bike carregada.

Estou impressionado com a cidade, sinto-me muito bem aqui. As bicicletas ficam sem cadeados do lado de fora dos locais que visitamos, não se vê um lixo no chão, para qualquer coisa que você consome sejam 20 minutos de uso de internet ou a compra de um chiclete na padaria há nota fiscal, os prédios tem um estilo clássico e muito bem cuidados. Poderia morar aqui sem problemas nenhum.

Nestes dias arrisquei fazer crepes, patinar no gelo e fomos visitar os Pinguins Magalhânicos.

Estamos hospedados no Hostel Independencia, muito bom e barato. 2500 para acampar ou 5000 para os quartos compartilhados. Possui um café da manhã fantástico e muitos gatos.

Ouvindo Fica de Chico Buarque mando abraços e beijos a todos da família, aos amigos e à namorada que tanto faz falta.

Abaixo as fotos (como a galeria de fotos do WordPress é um lixo recomendo clicar nas fotos apertando a tecla Shift, dessa forma elas abrirão em outra janela).