Dia 46 – 1320 km – Glaciar Perito Moreno, El Chalten e empurrando até a Carretera Austral

Tá, realmente a cada post eu falo que conheci o lugar mais bonito que já ví mas o Fitz Roy em El Chalten é excepcional.

Se passaram muitos dias desde o último post mas esta dificil de atualizar as coisas por aqui, as conexões são sempre péssimas nas pequenas cidades impossibilitando fazer qualquer coisa. Nos últimos 4 dias fiquei doente e tive que vir de carona em um caminhão para a cidade de Coihaique, capital da região de Aysen no Chile em busca de um hospital mais decente.

Foi uma pena não fazer esses 500km pedalando desde Villa O Higgins no sul da Carretera Austral, mas a saúde em primeiro lugar. Pelo menos pude conhecer a bondade dos caminhoneiros do sul do chile que me ajudaram muito sem cobrar absolutamente nada em uma viagem de 2 dias.

De volta ao diário e seguindo a linha cronológica das coisas fui ao Glaciar Perito Moreno, uma maravilha da natureza! Só quem já viu para entender o olhar à geleira pela primeira vez, um sutil “UAU!” saiu da minha boca seguido por muitos do micro ônibus ao terminar a estrada cheia de curvas do Parque Nacional de los Glaciares.

Primeira vista do Glaciar Perito Moreno

Como eu queria fazer a navegação na parede norte do Glaciar optei pelo passeio oferecido pelo hostel que estava hospedado chamado Del Glaciar do Hosteling International. Pelo preço de ARS 135,00 incluí Traslado ida e volta; 1 hora de trekking para ver a parede Sul do Glaciar; 2 horas e meia pelas passarelas; 1 hora de navegação pela parede norte.

De volta ao Hostel encontrei um novo colega Cicloturista que tambem esta indo ao Norte, Hubert um francês de 20 anos saiu de Ushuaia e em dois dias sairia para El Chalten, mesmo destino que eu mas de qualquer forma optei por sair 1 dia antes que ele para aproveitar o bom tempo.

O pessoal aqui realmente não gosta das placas nas estradas, quase todas são perfuradas por tiros. Pelo menos esse aí tinha boa mira, todas as flechas foram pro saco!

São mais ou menos 230km entre El Calafate e El Chalten. Os primeiros 30km foram boiada pois até a Ruta 40 tive muito vento ao meu favor, depois fiz mais 110km com vento lateral vindo do Oeste e os últimos 90km foram barra pesada por três motivos: El Chalten esta localizado em uma altitude alta, por isso neva com frequência na Cidade; Por todo o trecho eu teria muito, muito vento contra; O tempo estava um lixo, muito nublado e chuvoso.

No meio do caminho fiz meus primeiros 1000 km patagônicos.

Foram 3 dias inteiros de pedalada e 2 noites dormindo na Ruta. Próximo a chegada de El Chalten fui ultrapassado pelo Hubert com sua levissíma bagagem de 30kg e quando estava a 1km da cidade a chuva virou uma forte nevasca. Com um enorme sorriso no rosto senti mais uma vez um enorme estado de felicidade, daqueles sentidos por qualquer pessoa que concluí com sucesso uma etapa dificil!

Feliz chegada à El Chalten

Em El Chalten os dias não estavam nada bons, esperei por dois dias a nevasca dar uma tregua, o que não aconteceu, me impossibilitando de fazer os famosos Trekkings pelo Fitz Roy. Eu e o Hubert decidimos continuar na estrada juntos, portanto partiriamos em direção ao Chile mas para isso precisariamos saber as disponibilidades dos barcos do Lago del Desierto e do famoso barco do Lago O Higgins.

Como já previsto pelo Antonio Olinto o barco do Lago del Desierto estava fechado pois estavamos fora da temporada de turísmo, mas após pesquisarmos na internet descobrimos algo sobre um grupo de cicloturistas que tambem não conseguiu o barco e fez uma trilha meio desconhecida de 12km que segue o contorno de todo o Lago em 15 horas empurrando suas bikes. Aliás esse é um excelente artigo, vocês podem le-lo em inglês aqui: Pushing to Villa O’Higgins, Chile.

Ao lermos o artigo pensamos “Se alguem já fez nós podemos fazer tambem” portanto decidimos arriscar e fomos ao centro de informações turísticas onde conseguimos tirar uma foto da dita trilha.

Mapa da Trilha do Lago del Desierto até Candelário Mansilla

Para chegar ao Lago del Desierto deve-se pedalar de El Chalten por 40 km ao Noroeste em uma estrada de rípio maravilhosa, uma pequena amostra do que teriamos pela frente na Carretera Austral.

Bosques verdes, vermelhos e amarelos com rios azuis e motanhas nevadas ao fundo.

O artigo do grupo que fez a trilha por 15 horas havia sido escrito em 2003 e ao chegarmos no Lago del Desierto a primeira surpresa, a ponte que nos atravessaria até a trilha estava destruída há quase 1 ano, só restavam os cabos de aço. Após muito papo com os policiais que fazem a proteção da ponta sul do lago decidimos que o melhor a fazer, se queriamos mesmo continuar até o Chile por este caminho, seria fazer varios cruzes pela ponte quebrada pendurando-se entre os cabos levando toda a nossa bagagem aos poucos.

Atravessando o primeiro alforge pela ponte, esse pedaço do rio tinha uns 2 metros de profundidade e a água estava a 3 graus celcius. Não passava uma agulha!

Com sucesso, após pouco mais de meia hora terminamos de cruzar a ponte. Agora mais 15 horas de trilhas nos esperavam!

Nos primeiros km de trilha os nervos começaram a piorar terrivelmente, a trilha é tão pouco utilizada que por varias vezes perdemos o caminho, varios troncos e pedras enormes caidas impediam a passagem das pesadas bikes e tentamos utilizar o sistema recomendado pelo artigo em inglês, levar primeiro os alforges e depois as bikes vazias.

Acontece que a diferença do peso das bagagens que eu e o Hubert tinham eram imensas, ele inclusive tentou me ajudar carregando uma parte do meu equipo mas para mim aquilo estava impossivel. Começei a cair varias vezes até bater em uma das pedras do sendero e realmente começei a repensar no caminho que estava fazendo, afinal preparei meu equipo para estrada, não para trilhas. Eis que já estava quase escurecendo e ouvi o barulho de um barco, larguei meu equipo e desci rapidamente pelas arvores e comecei a ascenar ao Sr. que o comandava. Prontamente ele nos ajudou! Se chama Ivor é Sul Africano e esta construindo uma belíssima pousada no meio do Lago del Desierto, todo dia ele utiliza o barco para levar os materiais de construição até a pousada. Após nosso “resgate”, Ivor propos que esperassemos por 2 dias na metade do lago (onde encontra-se sua pousada) pois ele voltaria e poderia nos levar por todo o caminho até a Ponta Norte do lago, assim não teriamos fazer esta trilha.

O Hubert decidiu por continuar já no outro dia de manhã pela trilha mesmo assim, não queria esperar pelo barco e insistiu para que eu fosse junto. Mesmo assim não estava me sentindo em uma situação confortavel, não era obrigação dele carregar meu equipo em uma terrivel trilha, alem disso tinha sido um dia muito pesado eu estava muito cansado, quase machucado preferindo assim tomar a dificil decisão de não cruzar para o Chile por este caminho e sim por 700km de pampas até Chile Chico, portanto pedi ao Ivor para me deixar na ponta Sul do Lago pois voltaria a cidade.

Nesse momento, no barco, estava pensando muito em o que significava toda aquela dificil situação e sem eu saber o Hubert sacou essa foto.

Já era noite quando cheguei de volta ao Hostel em El Chalten, após responder as perguntas de todos por que eu tinha voltado fui dormir pensando muito em tudo o que havia passado. De manhã comecei a preparar todas as minhas coisas para partir de volta a Ruta 40, o dia estava lindíssimo e com um sol muito brilhante, optei por finalmente ir fazer as trilhas do Fitz Roy.

Belíssimo dia no Parque Nacional Los Glaciares, vista do Mirador do Fitz Roy.

Passei metade do dia no parque.  A vista da foto acima é do Mirador del Fitz Roy que se chega depois de 3 horas de trilhas. Ao voltar para a cidade peguei minhas coisas e comecei a sair da cidade e 10 km depois da minha saída um INACREDITAVEL vento contra começou. Eu não podia acreditar, queria chutar tudo, a bicicleta, o equipo! Aqueles mesmos 90 km dificieis que fiz para chegar em El Chalten por causa do vento e que seriam teoricamente faceis para sair já que o vento sempre sopra vindo do Oeste, estavam agora tambem contra mim! Tentei me acalmar e pedir por carona pelo menos para cortar essa parte de vento contra e para minha surpresa, pela primeira vez na viagem ninguem me ajudou.

Muito puto da vida, olhando aquele mapa que me mostrava 700km de pampas até Chile Chico, que eu levaria mais de 1 semana para fazer, resolvi voltar tudo o que tinha pedalado e fazer os 7km restantes de trilha a partir da Ponta Norte do lago sozinho, realmente não estava pronto para desistir! A partir desse momento tudo começou a dar certo, foi incrível, andei por 20km e rumo ao Lago del Desierto até que um grupo de trabalhadores em uma pickup ofereceu uma carona sem se quer eu perguntar.

Ao fim da tarde lá estava eu de novo no lago, passei a tarde conversando com os guardas da Ponta Sul (parece que quando estamos sozinhos as pessoas são mais amistosas com você), fui convidado a comer Truta que eles tinham acabado de pescar e empanadas! Ofereceram o jardim da Gendarmeria para eu colocar a barraca. Estava me sentindo muito bem! No outro dia aguardaria o Ivor e pediria para ele me levar até a Punta Norte.

As 16:00 Ivor chegou e ao me ver já lançou: Que paso? Que estás haciendo ha cá?

Expliquei toda situação e prontamente ele disse que me levaria até a Punta Norte! Que buena gente é esse Ivor, quando a pousada estiver pronta voltarei lá com certeza!

Sem a ajuda do Ivor não chegaria a Villa O Higgins

Na Punta Norte do lago se fazem todos os tramites alfandegários argentinos. Cheguei e  já era final da tarde, deixei tudo carimbado pois sairia bem cedo no outro dia, afinal o ultimo barco do ano sairia de Candelário Mansilla no dia 24/04 e já era dia 22/04. Tinha ainda 7km de trilhas + 12 km de rípio depois da fronteira. É uma margem de erro muito pequena, se alguma coisa desse errado teria que empurrar tudo de volta sozinho + 12 km de trilhas pois o Ivor não saberia que estava precisando de ajuda uma vez que ele só navega na parte sul do lago.

Da Punta Norte pude apreciar um belíssimo por do sol das costas do Fitz Roy

Acordei as 8h no dia 23/04 peguei a bike e os equipos e comecei a empurrar. Essa trilha que parte da Punta Norte é muito melhor que a que beira o lago pois é muito mais utilizada, inclusive por muitos cavalos, então é bem assentada e marcada.

Trilha de 7km da Punta Norte até a divisa com o Chile, muito dificil mais bem mais facil que a abandonada trilha que cruza o Lago del Desierto

Após 4 horas empurrando a bike chega-se a fronteira do Chile com a Argentina, no lado chileno inicia uma estradinha de rípio de 12km até o serviço alfandegário chileno chamado Candelario Mansilla, essa estrada é basicamente descida, bem facil de ser concluída em menos de 2 horas.

Após 4 horas empurrando a bike, chega-se a fronteira.

Ao chegar as 16hrs no porto de Candelario Mansilla fui recebido com muita surpresa pelo Hubert “Man i tought i would never see you again!”, outro brasileiro chamado Ruddy (um alpinista que viaja em bike escalando os principais picos da América do Sul) e um mochileiro Israelense aguardavam o barco que chegaria pela manhã do próximo dia!

Chegada em Candelário Mansilla. Foto by Hubert

Passamos o resto do dia conversando e cozinhando, cada um fez uma especialidade para compartilhar entre os 4 aventureiros que aguardavam o barco. O porto possui um refugio livre com aquecedor a lenha, banheiro e tudo mais (o Chile é muito mais avançado nesse ponto de ajuda a aventureiros do que a Argentina).

Reunião em Candelario Mansilla

O barco chegou as 10hrs do dia 24/04 e após chorar muito com o capitão Cesar conseguimos um desconto de 20 dolares na passagem pagando USD 60 cada. O barco nessa época do ano é contratado pelo governo do Chile  para navegar por 13 horas pelos canais do lago Bernardo O Higgins atendendo a comunidades muito isoladas! A viagem é lindissima, ve-se o glaciar O Higgins e muitas montanhas banhadas pelo belo e gigantesco lago azul. É uma viagem bem turbulenta pois o vento nessa região é muito forte!

Momento história: Bernardo O Higgins e San Martin foram os heróis do Chile e Argentina respectivamente. O mesmo lago O Higgins tem o nome de San Martin no lado Argentino. Eles estão lado a lado pois lutaram juntos contra a colonização da Espanha. Por isso todas as cidades na ARG tem uma rua chamada San Martin e no CHI uma Bernardo O Higgins.

 

 

O sol já estava se pondo, haviamos parado em umas 20 comunidades quando finalmente começamos a ir em direção a Villa O Higgins (500 hab.), onde chegamos às 23hrs. Fiquei por 1 noite na Hospedagem Carretera Austral e parti em direção a Cochrane (230km de distância). Após pedalar 50km começei a ter diarréia seguida por cólicas terriveis, muito preocupado parei na estrada para pedir ajuda, que só consegui 6 horas depois. Uns homens que estavam trabalhando com construção civil em Villa O Higgins se ofereceram a me levar de volta para o hospital municipal, chegando lá o tal “hospital” estava fechado, pois possuí só uma doutoura que estava fora da cidade. Procurei um lugar para me hospedar e tive uma desagradavel noite sendo constantemente acordado pelas cólicas.

Saí as 8 horas da manhã da hospedagem e aguardei no início da estrada por algum caminhão que pudesse me dar uma carona e em poucos minutos fui muito ajudado por novos caminhoneiros chilenos que me trouxeram até Coihaique, capital da Região de Aisen.

Andar mais de 500km com ajuda de pessoas que não pedem nada em troca é algo que se pode obter em poucas regiões, essa é uma delas! Agora estou em Coihaique respousando para ficar melhor logo, assim posso seguir para La Junta e fazer os passos do Valdo Na Bike no norte da Carretera Austral.

Beijos e abraços a todos!!!