Dia 17 – 498 km – Cruzando o Estreito de Magalhães rumo a Capital da Patagônia no Chile

Como de costume saímos muito tarde do hostel de Rio Grande, por volta das 14:00. Na periferia da cidade avistamos o monumento em homenagem aos mortos na Guerra das Malvinas, paramos para tirar umas fotos e logo vieram os primeiros curiosos. Dessa vez eram veteranos da guerra que estavam ao lado construindo uma tenda para um festival que aconteceria em memoria aos 20 anos da guerra. Ali mesmo tivemos uma aula sobre o monumento, contada por ninguém  menos dos que estiveram lá. Tiramos fotos, contamos sobre nossa viagem e saímos em direção a Ruta 3, como sempre com muito vento contra.

Pedalamos até o sol começar a se por e encontramos a belíssima Estância Violeta, pouco menos de 30km ao norte da cidade de Rio Grande. Batemos palmas e logo saiu um senhor meio desconfiado que após explicarmos sobre a viagem nos concedeu uma casa ao lado da sua que estava em reforma, com aquecedor, fogão, banheiro. Mesmo assim preferimos montar as barracas do lado de fora pois o céu estava fantástico (é impressionante velo de um lugar pouco iluminado com tão pouca poluição, parece mais um planetário).

Saímos cedo e os ventos tinham dado uma trégua, ainda restavam 60km até a fronteira com o Chile e apertamos o passo, mesmo assim fomos alcançados pelo francês que estava hospedado no mesmo hostel em Rio Grande e passamos a pedalar em trio. Durante a pedalada avistamos aqueles extratores de petróleo old-style e na hora de chegar perto para tirar uma foto a primeira queda da bike (Dica Óbvia: Nunca saia de uma via asfaltada para o rípio com velocidade superior a 20km com uma bicicleta pesando 50kg, a chance de dar merda é altíssima) de qualquer forma só ganhei uns arranhões na mão já toda cortada pelo frio. Pedalamos por mais algumas horas e chegamos finalmente a cidade de San Sebastian da Argentina, o Chile possuí uma San Sebastian também do outro lado igualmente pequena só para os tramites fronteiriços Ganhei meu primeiro carimbo chileno e continuamos o pedal, recebemos uma informação de outros ciclistas que esta estrada possui vários abrigos então continuamos pedalando pelo rípio até acha-los, avistamos ao lado da estrada os resquícios da disputa da Terra do Fogo, alguns quilômetros de campos minados.  Chegamos ao primeiro abrigo, uma casa muito simples só com teto, sem janelas ou portas (que descobrimos depois que foram todas roubadas) e tentamos sem sucesso fazer uma fogueira pois as madeiras estavam todas molhadas então resolvemos usar os fogareiros para fazer obviamente o arroz hermoso.

Acordamos bem cedo a ponto de ver o sol nascer, numa tentativa inútil de evitar o vento que sabíamos que seria forte. Fazia muito sol mas o rípio estava todo enlamaçado por causa da forte chuva do dia passado e um vento que nunca havia visto na minha vida vinha na nossa cara. Achei que seria difícil encontrar uma situação tão ruim quanto foi a Serra dos Lima (trecho do Caminho da Fé em Minas Gerais que completei no ano passado), mas esse vento da patagônia é de matar. Foram 30km de puro sofrimento, nas subidas mais leves tínhamos que empurrar a bicicleta e nas decidas pedalávamos com muito esforço e marchas mais leves para atingir uns 6km/h. Ao avistarmos um outro abrigo optamos por pedir carona para algum caminhoneiro (nestas condições levaríamos no mínimo três dias para percorrer 100km até o Estreito de Magalhães). Dito e feito, após umas tentativas e o dia quase se pondo conseguimos uma carona com o Guilhermo, um caminhoneiro que carregava madeira para a nossa cidade de destino. Após 1 hora de conversa dentro do caminhão chegamos a simpática cidade de Porvenir, 15.000 habitantes e nos hospedamos no Hostel Central por 15000 pesos chilenos.

No outro dia fomos dar um giro pela cidade e comer o prato típico recomendado pelo Guilhermo chamado Peixe-Rei acompanhado da cerveja Austral (tudo uma delicia, prato recomendadíssimo). Às 15:00 nos dirigimos ao Ferry Boat que saí todos os dias às 17:00 rumo a cidade de Punta Arenas, do outro lado do Estreito de Magalhães. O preço é 5100 pesos chilenos e as bicicletas não pagam nada. Na saída tivemos a presença de muitas gaivotas e golfinhos.

Após 2 horas chegamos ao outro lado do Estreito e no porto de Punta Arenas avistamos as fragatas que estão participando da Regata Velas Sudamérica. Desembarcamos e fomos logo visitar o navio veleiro do Brasil, chamado de Cisne Branco. Ao chegarmos os marinheiros avistaram as bikes com as bandeiras e logo nos convidaram para conhecermos o interior do veleiro, tudo é muito lindo e novo. O barco foi construído na Holanda e entregue ao Brasil em 2000.

Conversamos muito com os tripulantes, ganhamos boné, livros da marinha e alguns até arriscaram uma volta na bike carregada.

Estou impressionado com a cidade, sinto-me muito bem aqui. As bicicletas ficam sem cadeados do lado de fora dos locais que visitamos, não se vê um lixo no chão, para qualquer coisa que você consome sejam 20 minutos de uso de internet ou a compra de um chiclete na padaria há nota fiscal, os prédios tem um estilo clássico e muito bem cuidados. Poderia morar aqui sem problemas nenhum.

Nestes dias arrisquei fazer crepes, patinar no gelo e fomos visitar os Pinguins Magalhânicos.

Estamos hospedados no Hostel Independencia, muito bom e barato. 2500 para acampar ou 5000 para os quartos compartilhados. Possui um café da manhã fantástico e muitos gatos.

Ouvindo Fica de Chico Buarque mando abraços e beijos a todos da família, aos amigos e à namorada que tanto faz falta.

Abaixo as fotos (como a galeria de fotos do WordPress é um lixo recomendo clicar nas fotos apertando a tecla Shift, dessa forma elas abrirão em outra janela).