Aquele souvenir furtado

Dia das crianças, 13 de outubro de 2013, faz sol e minha vontade é utilizar a ciclofaixa da cidade de São Paulo para pedalar até o Parque do Ibirapuera com minha noiva!

O relógio marca 12h na chegada ao parque, damos umas voltas até optarmos por amarrarmos nossa bicicletas com um cadeado grosso em um paraciclo do quiosque movimentado em frente ao Planetário do Ibirapuera.

A ideia era simples: Parar alguns minutos, verificar os horários de apresentação do Planetário, voltar às bikes e decidir se damos uma volta correndo ou pedalando pelo parque.

Mas para a nossa surpresa em exatos 2 minutos após amarrarmos as bikes caminharmos até a porta do planetário e olharmos para trás… Elas não estavam mais lá!

O primeiro pensamento é: Eu devo ter amarrado em outro lugar, estou ficando louco.

Depois cai a ficha e você se da conta: Fica bobo, atônito, se sente burro; Pensa: Puta que pariu você pedala a anos na terceira maior cidade do planeta, sabe que não pode deixar bikes em qualquer lugar afinal roubos de bike acontecem no mundo inteiro. Idiota!

Aí você corre, avisa a Guarda Civil, telefona para a PM, faz tudo ao seu alcance mas você já sabe… Dificilmente encontrará sua bike de novo.

Justo aquela bike… Aquele souvenir furtado que sempre te lembrava:

  • Da primeira vez que você pedalou 15km para chegar ao trabalho, suado, cansado e que fez cair a ficha de que você pode e DEVE utilizar meios de transporte sustentáveis para chegar ao seu trabalho.
  • Da sua primeira Bicicletada na Avenida Paulista, no coração da megalópole quando em 2008 não existia nenhum espaço para o ciclista. Mas lá você era o dono do pedaço, os carros já não te espremiam na calçada nem buzinavam. Naquele lugar em meio a 300 ciclistas frágeis todos se tornavam um só, muito maiores que qualquer veículo motorizado. Crescemos, mostrando ao governo que estávamos lá para ficar e ficamos!

 

  • Do seu primeiro pedal longo por um trajeto “proibido” até o litoral paulista, em baixo de chuva torrencial, em uma rota de manutenção da Ecovias que ainda nem se chamava Márcia Prado pois nossa colega ainda não havia sido assassinada por um motorista de ônibus que anda por aí impune.

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  • Da sua primeira cicloviagem. No Sul de Minas Gerais, lugar onde você ficou pela primeira vez em pousadas simples e descobriu que lá estão pessoas de coração gigante! O Caminho da Fé e seus quase 400 km de terrenos difíceis para por a fé de qualquer um a prova.

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  • Da compra do primeiro livro sobre bicicleta: No Guidão da Liberdade do Antonio Olinto.
  • Da palestras do Fábio Zander e Paulo Cunha sobre cruzar grandes distâncias em cima de uma bike, Patagônia e Nova Zelândia; Com direito a ganhar seu primeiro livro com dedicatória do autor.
  • De quando você tomou coragem, sentiu medo e ao mesmo tempo tesão em querer algo grande para si! Algo para chamar de seu e de mais ninguém, algo que eu pudesse levar até o fim da minha vida, mesmo que significasse largar o emprego, trancar faculdade, e pedir à pessoa amada para te esperar enquanto você se dedicava a conhecer um lugar apaixonante por sua natureza, beleza intocada, para absorver cada experiência ao passo devagar que só uma bicicleta pode proporcionar. Cruzar a Patagônia Argentina e Chilena em quase 3000km carregando tudo necessita para sobreviver: Barraca, fogareiro, água e comida.

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  • De quando você passou a evangelizar a bike, tentando convencer amigos a comprar bikes, deixarem seus carros em casa e mostra-los de que pedalar é preciso. Mesmo que isso custasse leva-los em viagens até a praia de forma muito, muito lenta, trocando seus pneus furados e arrumando correntes quebradas com um sorriso no rosto!
  • Da frustrada tentativa de cruzar Cuba com a bike

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  • De mudanças fundamentais em sua vida onde prioridades se tornariam: Conhecer, viajar, aprender e amar. Tudo isso da forma mais simples possível.

Não há duvidas de que fará falta!

Sempre imaginei que pregaria aquele quadro de bicicleta em uma parede, presenteando meu filho ou um sobrinho dizendo-o para dar de louco pelo menos uma vez na vida, largando tudo e indo atrás do que realmente acredita independente do que os outros vão pensar.

Mas o furto da minha lindíssima e eterna bike marca o inicio de um novo ciclo onde poderei renovar idéias, aprender a travar uma nova bicicleta com uma boa U-LOCK quando for necessário deixa-la sozinha 😉 e planejar novas viagens no futuro ao lado de quem eu amo, construindo novas histórias!

Dados das bicicletas furtadas no domingo (13 de Outubro de 2013) no Parque do Ibirapuera:

  • TREK 4300
  • Ano: 2008
  • Cor: Cinza/Preto
  • Tamanho: 18
  • Número Serial: wtu074c0691d
  • Bagageiro TOPEAK MTB Explorer; Adesivos de Cuba, Chile, Argentina, Caminho da Fé.
  • TREK 3500
  • Ano: 2011
  • Cor: Cinza Chumbo
  • Tamanho: 16
  • Detalhes em vermelho; Pezinho de apoio; Manetes de freios invertidos, atrás freia na frente e na frente freia atrás (veio da Nova Zelândia)

Se você souber do paradeiro e me contar, serei eternamente grato.

Abraços!

Andar de bicicleta em São Paulo

Fiz um video mostrando como pedalo por São Paulo. No dia 26/08/2011 (sexta-feira) gravei o trajeto que faço pelas manhãs para ir trabalhar, saio da Av. Indianópolis na ZS. e vou até o Parque Antártica na ZO. em um trajeto de aproximadamente 14km (ida).

É impressionante a quantidade de carros (que custam 10x, 20x mais que uma bike) são deixados para trás criando enormes congestionamentos, gastando combustível e poluindo nossa cidade.

Definitivamente após fazer esse vídeo ví que faço bastante coisa errada e tenho muito a melhorar, sendo assim posso não ser o melhor ciclista para dar dicas de commuting, mas resolvi fazer esse post para compartilhar algumas premissas que eu SEMPRE respeito enquanto pedalo nessa megalópole e que provavelmente fizeram com que desde 2008 (quando comecei a pedalar) eu nunca tenha sofrido um único acidente.

1) Eu nunca ando espremido no canto direito da via! Essa é definitivamente a dica mais importante. Pedalar na cidade é como uma dança em que o Ciclista é quem conduz. Faça com que você seja visto, imponha respeito e ande no meio da faixa da direita para ter espaço de reação e conforto. Você é um veículo como qualquer outro e deve por lei ser respeitado!

2) No farol, eu fico o máximo que posso à frente dos veículos. Quando o farol abre é a hora em que os veículos disputam posição e você não vai querer estar no meio deles. Vá para além da faixa do pedestre (respeitando sempre o espaço deles), tenha espaço para você sair antes de todos para que eles possam desviar, não disputar com você.

3) Eu sempre uso capacete Ele me protege do sol, deixa minha cabeça ventilada e em caso de uma queda pode fazer toda a diferença.

4) Não uso óculos de sol e sempre utilizo roupas claras. Acho muito importante manter o contato olho a olho com os motoristas, um olhar pode trazer um entendimento essencial sobre a atitude que cada um vai tomar.

5) Antes de entrar no corredor, sempre olho para ver se não estão vindo motos.

6) Sempre utilizo minhas mãos para demonstrar aos motoristas o que vou fazer. O bração para a direita e para a esquerda não deixa dúvidas nos motoristas quanto a sua atitude.

7) Eu acredito que nenhum motorista vai passar propositalmente em cima de um ciclista. A menos que você esteja lidando com uma pessoa mentalmente doente, poucas pessoas vão propositalmente colidir com você. Por isso friso a dica nr 1, FAÇA-SE SER VISTO!

8 ) Pedalo o mais estavel possível, sem viradas bruscas e movimentos inesperados. Demonstro clareza sobre as minhas atitudes para os outros motoristas

9) Calçada e farol vermelho em último caso e com muita prudencia. Não tem como, sempre vai ter uma hora que você não vai conseguir passar pelos carros e disputar largada com os outros motoristas me sinto muito inseguro. Essas são as horas que eu vou para a calçada e passo os outros carros. Já passar no farol vermelho, só quando não há pedestres e é garantido que não esta vindo nenhum carro. Na dúvida eu não passo.

10) Sempre dou bom dia para outros ciclistas. Educação e contato com outras pessoas faz muito bem para o dia a dia

Segue o vídeo (a data da máquina estava errada!):

O que eu levo nas minhas cicloviagens

Já li muitas matérias na internet sobre o que levar para uma cicloviagem. Com o intuito de ajudar quem esta se preparando para uma longa viagem crio agora o meu meu próprio artigo.

Criei um vídeo mostrando tudo o que carrego, da mesma forma que o Daren Alf do BicycleTouringPro.com fez. Segue abaixo:

Para carregar todos os meus itens eu utilizo:

  • Par de Alforges Ortlieb Back-Roller Classic 40 lts
  • Mochila para trekking Quechua – 40 lts
  • Bolsa de Guidão Deuter
  • Bolsa de Quadro Btwin

Alforge traseiro direito

  • Necessaire para itens de banho
  • Shampoo, desodorante, perfume, gel de cabelo, escova de dente, lentes de contato, pente, fio dental, limpador de lentes, saboneteira, lixa, pasta de dente
  • Blusa (Anorak) Quechua
  • Fleece da Columbia
  • Camiseta sintética
  • Toalha sintética Ultraleve
  • Gorro de Lã natural
  • Camiseta de algodão
  • Meia sintética grossa para caminhada
  • Underwear
  • Camisa algodão manga comprida
  • Meia de algodão
  • Shorts/Calça sintético
  • Sunga
  • 2 cuecas sintéticas
  • Luva Ski
  • Calça Jeans
  • Calça Impermeavel Quechua
  • Cobertor Aluminizado
  • Manuais de Instrução

Alforge traseiro esquerdo

  • Saco Estanque para equipamentos eletronicos
  • Carregador da Camera Fotografica
  • Carregador do iPod
  • HD Externa 500gb
  • Cabo USB
  • Tomada Universal
  • Token Banco
  • Esponja
  • Fogareiro Whisperlite International
  • Panela Aluminio Peq.
  • Isqueiro
  • Pano para Limpeza
  • Panela aluminio com Teflon
  • Kit Remédios
  • Isolante Térmico
  • Ferramentas
  • Gaita
  • Tampoes de Ouvido
  • Lanterna de Cabeça
  • Cadeado
  • 5mts de corda fina

Bolsa de Guidão

  • Bussola
  • Regua
  • Caixa de oculos dura
  • Mini tripé para maquina fotografica
  • iPod
  • Camera Digital
  • Carteira
  • Chaves c/ Apito Emergencia
  • Boné tipo explorador
  • Luvas de Ciclismo
  • Pescoceira Sintetica
  • Guia de Viagens América do Sul
  • Passaporte
  • Bolsa de Dinheiro
  • Spray de Pimenta
  • Purificador de Água

Mochila

  • Pneu Kevlar
  • Capa de Chuva p/ Mochila
  • Saco de Dormir p/ -15
  • Saco Estanque
  • Barraca Manaslu Discovery Mountain

No corpo

  • Bota de Caminhada a prova dagua Nomade
  • Camiseta Algodao
  • Shorts Ciclismo
  • Cueca
  • Meia Sintetica
  • Crocs

Bolsa de Quadro na Bicicleta

  • Bomba de Ar
  • Garrafa dagua
  • Ferramenta Geral
  • Canivete Suico
  • Camara de Ar
  • Kit Reparos de Camara
  • Lanterna de Emergencia
  • LLubrificante Finish Line
  • Extrator de Corrente
  • Ferramentas de Boca

Na bicicleta

  • Cadeado Espiral grande
  • Ciclocomputador
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Dia 86 – 2279 km – Pedalando no Norte da Carretera Austral, Região dos Lagos Chilena e Cruzando a Cordilheira dos Andes de volta para a Argentina – Parte I

Parque Nacional Nahuel Huapi em Bariloche

A cidade de Coyhaique no Chile foi uma boa pedida para um descanso prolongado durante de uma semana enfermo, tranquila e organizada, conta com wifi gratuito em praças publicas, hospitais, lojas de todos os tipos de equipamentos e bicicletarias, mas com seus 50.000 habitantes esta foi uma cidade complicada para achar uma hospedagem com um preço acessivel. Por ser fora de temporada quase todos os albergues e campings estavam fechados, foi então que decidi pela primeira vez perguntar ao corpo de bombeiros por um local para colocar a barraca e acampar, o que para minha surpresa foi negado.

Após muita procura encontrei a hospedagem Lautauro de um simpático senhor que viajou por muito tempo pela América do Sul inclusive viveu um tempo no Brasil, falava português e me deixou acampar no quintal de sua hospedagem por 2000 pesos chilenos dia, podendo utilizar cozinha, banheiro com água quente e etc.

Enquanto esperava melhorar conheci toda a cidade e interessantes pessoas como o Marco, o dono de um circo que estava em turne na cidade que após muita conversa e interesse pela minha história me convidou para um de seus espetaculos totalmente de graça. A quanto tempo eu não ia ao circo!

Quando fiquei melhor, por recomendação de muitos e devido ao mal tempo optei por ir de onibus a cidade de La Junta para finalmente voltar a pedalar! Ainda no ônibus pude presenciar um dos maiores atos de bondade de toda a viagem, uma senhora chamada Claudina que estava acompanhada de seu marido começou a conversar comigo e após 15 minutos de papo me ofereceu hospedagem de graça em sua calorosa casa. Após um ótimo chá com bolachas, um delicioso bolo de chocolate e horas de conversa pude dormir em uma cama quente daquelas com mais de 5 cobertas, uma das melhores noites da viagem! De manhã me despeço com todas as palavras de agradecimento que sei em espanhol e sigo viagem.

Finalmente de volta à bike no Norte da Carretera Austral

Apesar do mal tempo logo nas primeiras pedaladas fiquei bobo com tamanhã beleza, é incrível a diferença da paisagem de um lado para o outro da cordilheira dos Andes. Nesta região do Chile a vegetação é riquissima e a água é abundante, pude até abandonar uma das minhas garrafas pet pois de poucos em poucos quilometros se chega a uma cachoeira, um lago ou um rio.

As folhas da Carretera com mais de 1 metro e meio de diâmetro

Empolgado estava em um rítimo incrível mas no meio do caminho, logo após entrar na região X comecei a sentir uns saltos na pedalada seguidos por um barulho estranho, ao parar para analisar o que tinha se passado ví que um dos gomos da corrente havia quebrado de uma forma que não conseguia mais encaixa-lo e tive que remove-lo, encurtando a corrente. O bom que foi um reparo rápido e não impediu de alcançar minha meta, chegar a Villa Santa Lucia.

Pausa na empolgação para arrumar a corrente quebrada.

Eram 16 horas quando ví a placa de Santa Lucia, uma vila bem pequena e sem muito o que fazer, logo fui a procura de uma hospedagem e encontrei um ótimo lugar onde se faziam pães caseiros e que pude colocar minha barraca por 1000 pesos chilenos.

No outro dia acordei bem cedo e queria chegar em El Amarillo, a chuva não dava tregua e a saída de Santa Lucia tem uma subida barra pesada de rípio ruim que eu desconhecia o que me fez optar por parar em Puerto Cardenas, uma decisão feliz pois todo meu equipo e roupas estavam encharcados e dali só restavam 10km para iniciar o Asfalto. Me dei ao luxo de acordar na manhã seguinte só as 11 horas e tomar com calma um excelente café pois o trajeto até Chaiten seria moleza.

Placas que me deixam muito feliz!

Foram 4 horas pedalando de Puerto Cardenas até Chaiten e a mais de 10km da cidade já pude observar os sinais do vulcão que destruiu a cidade em 2008, todo o acostamento da estrada e as beiras dos rios estão cobertos pelas cinzas expelidas à 2 anos.

Chegada à Zona Zero - Cero luz, Cero agua y Cero Apoyo del Gobierno

Depois da erupção do vulcão a cidade que possuía seus quase 5000 habitantes virou uma cidade fantasma devido a não restauração do fornecimento de água e luz pelo governo, uma tentativa mal sucedida de expulsar qualquer um que queira alí viver já que 300 habitantes apaixonados por sua cidade continuam seus negócios como hospedagens, mercados e até uma danceteria que só abre uma vez por semana. Tudo à base de geradores a diesel e água bombeada de rios locais.

Os trabalhos de reconstrução caminham a passos de tartaruga financiados por um curto recurso provido pelo antigo governo municipal.

Fiquei três dias na cidade pois a embarcação que me levaria até Puerto Montt passou por um problema e sua partida foi adiada. Confesso que é tenebroso sair a noite pelas ruas dessa cidade, em uma das oportunidades que fui à noite comprar comida no mercado local (um dos mais caros de toda a viagem) fiquei meio perdido pois a hospedagem estava a umas 20 quadras e não existe absolutamente nenhuma luz, só centenas de casas abandonadas e iluminadas pela lua fraca acima do ceu nublado.

No dia 08/05 pela manhã a enorme embarcação chegou e pude seguir até Puerto Montt, a maior cidade da Patagônia com seus 300.000 habitantes onde voltei a ouvir pela primeira vez desde que saí de São Paulo conselhos à respeito da segurança da bicicleta.

Normalmente turistas que vão a Puerto Montt estão alí para aguardar algum dos varios barcos que seguem ao Sul pelos canais chilenos, porem seguindo as dicas do meu downloadeado Lonely Planet pude comer um delicioso salmão na mantequilla no Mercado Municipal da cidade com direito a vista para o Vulcão Calbuco e servir peixes para uma familia de leões marinhos que alí vivem. Outra coisa muito interessante na cidade é a Feira de Artesanato de Angelmo, com artefatos de todos os lugares do Chile.

Depois de 2 dias na cidade o tempo finalmente ficou bom e pude, ainda indeciso sobre qual caminho tomaria para voltar a Argentina, seguir viagem ao Norte. Pesquisando na internet descobri que o caminho mais interessante seria ir até Petrohue e cruzar os lagos Todos los Santos, Laguna Frias e Nahuel Huapi para então chegar a Bariloche. Acontece que o valor dos barcos para fazer essa travessia custaria 230 doláres algo fora do meu budget, de qualquer forma descobri que se estivesse vindo de Bariloche em direção ao Chile existe uma promoção da alta temporada para ciclistas onde só se paga 80 doláres.

Foram 20 km muito fáceis até a lindíssima cidade de Puerto Varas, a estrada é excelente e sempre seguida de um grande acostamento, comi em um restaurante e depois fazer uma pequena ciesta segui caminho até Ensenada. Iria acampar em algum lugar no meio do caminho.

Já eram 18 horas e ainda não conseguia pensar em algum lugar à não ser a beira do Lago Llanquihue (segundo maior do Chile, tão grande que de algumas partes não se pode ver a outra extremidade) para acampar, o que é proibido de acordo com as placas da estrada e optei por ao inves de dizer que não compreendia espanhol parar em um posto Gendarmeria Chilena para pedir autorização, que foi devidamente concedida com uma troca de um pequeno favor proposto pelo capitão, o de varrer um dos galpões da Gendarmeria. Um preço justíssimo em troca de hospedagem à beira do belíssimo Vulcão Osorno.

Dormindo aos pés do Osorno

Passados alguns quilometros de Ensenada cheguei a base do Osorno e por recomendação dos Guardaparques optei por deixar meus equipamentos guardados com eles e subir até o ponto mais alto em que automóveis podem ir à 1300 metros de altitude.

Subidas Fortes Proximos 12Km, obrigado por avisar!

Foram 2 horas subindo na marcha mais Chicken da minha bike até chegar aos 1300 mts, uma dificil mas gratificante demonstração de como seriam os 22km do Paso Internacional Cardenal Samore que eu teria que fazer em alguns poucos dias com todos os meus equipos.

A belíssima vista do Vulcão Calbuco à partir do Osorno (pedalando até passar as nuvens).

Descer é que foi uma maravilha!

Caracoles do Osorno. Descer 12km em 15 minutos não tem preço.

De volta à base segui meu caminho rumo a cidade de Entre Lagos, sempre pedindo com sucesso para acampar nas fazendas ao longo da lindíssima ruta dos lagos no Chile, um dos lugares mais bonitos que pedalei.

Acontece que alguns muitos trechos estavam em reforma pesada, pois por ser uma ruta muito popular para o turismo o governo chileno à estava transformando de rípio para asfalto.

E eu achando que o rípio que era ruim...

Sobrando só a lama para mim.

1 dia de Chuva + Estrada em Construção

O governo do Chile faz tudo pelo social.

"Pequeño Sacrificio" por que não é ele que ta carregando 60kg numa bicicleta.

O engraçado é que eu estava tão encantado com o bom tempo, paisagens, animais, lagos e as pessoas que nem liguei para as condições da estrada.

No dia 13/05 cheguei a base do Passo Internacional Cardenal Samore onde iniciei às 16 hrs a subida de 22km até os 1321mts, termineando às 19:00 com o dia já no fim.

Feliz chegada ao topo do Paso Cardenal Samore!

Ainda em um estaado de extase por ter conquistado o topo fui surpreendido por uma neve fortíssima e tomei uma das decisões mais estupidas de toda a viagem, descer na escuridão total só com a minha headlamp, graças a isso por varias vezes fui surpreendido por carros que sem me ver tentavam na contra-mão ultrapassar os mais lentos no sentido contrário.

Chegando na base, agora no lado Argentino, faço os tramites alfandegários e saio a procura de algum lugar ao lado da estrada para acampar em uma das noites mais frias da viagem.

Pista Escorregadia = Varios tombos (Rumo Villa La Angostura)

Amanhace um dia belíssimo e sigo rumo a Villa La Angostura por uma pista totalmente congelada. Aqui os caminhoneiros tem que ter nervos de aço, o que ví de caminhão saindo da pista e invadindo o acostamento por inteiro não foi brincadeira.

Em um rítimo muito bom sigo passando pelo Lago Espejo e Villa La Angostura. Já no fim do dia posso avistar a cidade de Bariloche ao outro lado do Nahuel Huapi mas ainda restavam mais de 30km param serem percorridos em 1 hora de luz portanto optei por acampar abaixo de mais um belíssimo por do sol nos pampas.

Another beautiful night on the side of the road.

Acordo tarde para variar e espero até que a barraca se descongele para seguir pedalando com uma sensação de felicidade enorme até San Carlos de Bariloche (cidade incialmente planejada para terminar a minha viagem), é uma pena que o trafego de automóveis seja muito grande nessa região, os últimos 5 km fui obrigado a pedalar pelo terrivel acostamento de pedras soltas da Ruta 237.

Dia lindíssimo na chegada à San Carlos de Bariloche.

Devido aos muitos dias sem escrever vou dividir este post em duas partes, na próximo conto como foi a semana em Bariloche, a ida até Cipolleti passando pelas cidades de Piedra del Aguilla e Neuquen, e os ultimos 15 dias em Buenos Aires.

Abraços a todos!

Dia 46 – 1320 km – Glaciar Perito Moreno, El Chalten e empurrando até a Carretera Austral

Tá, realmente a cada post eu falo que conheci o lugar mais bonito que já ví mas o Fitz Roy em El Chalten é excepcional.

Se passaram muitos dias desde o último post mas esta dificil de atualizar as coisas por aqui, as conexões são sempre péssimas nas pequenas cidades impossibilitando fazer qualquer coisa. Nos últimos 4 dias fiquei doente e tive que vir de carona em um caminhão para a cidade de Coihaique, capital da região de Aysen no Chile em busca de um hospital mais decente.

Foi uma pena não fazer esses 500km pedalando desde Villa O Higgins no sul da Carretera Austral, mas a saúde em primeiro lugar. Pelo menos pude conhecer a bondade dos caminhoneiros do sul do chile que me ajudaram muito sem cobrar absolutamente nada em uma viagem de 2 dias.

De volta ao diário e seguindo a linha cronológica das coisas fui ao Glaciar Perito Moreno, uma maravilha da natureza! Só quem já viu para entender o olhar à geleira pela primeira vez, um sutil “UAU!” saiu da minha boca seguido por muitos do micro ônibus ao terminar a estrada cheia de curvas do Parque Nacional de los Glaciares.

Primeira vista do Glaciar Perito Moreno

Como eu queria fazer a navegação na parede norte do Glaciar optei pelo passeio oferecido pelo hostel que estava hospedado chamado Del Glaciar do Hosteling International. Pelo preço de ARS 135,00 incluí Traslado ida e volta; 1 hora de trekking para ver a parede Sul do Glaciar; 2 horas e meia pelas passarelas; 1 hora de navegação pela parede norte.

De volta ao Hostel encontrei um novo colega Cicloturista que tambem esta indo ao Norte, Hubert um francês de 20 anos saiu de Ushuaia e em dois dias sairia para El Chalten, mesmo destino que eu mas de qualquer forma optei por sair 1 dia antes que ele para aproveitar o bom tempo.

O pessoal aqui realmente não gosta das placas nas estradas, quase todas são perfuradas por tiros. Pelo menos esse aí tinha boa mira, todas as flechas foram pro saco!

São mais ou menos 230km entre El Calafate e El Chalten. Os primeiros 30km foram boiada pois até a Ruta 40 tive muito vento ao meu favor, depois fiz mais 110km com vento lateral vindo do Oeste e os últimos 90km foram barra pesada por três motivos: El Chalten esta localizado em uma altitude alta, por isso neva com frequência na Cidade; Por todo o trecho eu teria muito, muito vento contra; O tempo estava um lixo, muito nublado e chuvoso.

No meio do caminho fiz meus primeiros 1000 km patagônicos.

Foram 3 dias inteiros de pedalada e 2 noites dormindo na Ruta. Próximo a chegada de El Chalten fui ultrapassado pelo Hubert com sua levissíma bagagem de 30kg e quando estava a 1km da cidade a chuva virou uma forte nevasca. Com um enorme sorriso no rosto senti mais uma vez um enorme estado de felicidade, daqueles sentidos por qualquer pessoa que concluí com sucesso uma etapa dificil!

Feliz chegada à El Chalten

Em El Chalten os dias não estavam nada bons, esperei por dois dias a nevasca dar uma tregua, o que não aconteceu, me impossibilitando de fazer os famosos Trekkings pelo Fitz Roy. Eu e o Hubert decidimos continuar na estrada juntos, portanto partiriamos em direção ao Chile mas para isso precisariamos saber as disponibilidades dos barcos do Lago del Desierto e do famoso barco do Lago O Higgins.

Como já previsto pelo Antonio Olinto o barco do Lago del Desierto estava fechado pois estavamos fora da temporada de turísmo, mas após pesquisarmos na internet descobrimos algo sobre um grupo de cicloturistas que tambem não conseguiu o barco e fez uma trilha meio desconhecida de 12km que segue o contorno de todo o Lago em 15 horas empurrando suas bikes. Aliás esse é um excelente artigo, vocês podem le-lo em inglês aqui: Pushing to Villa O’Higgins, Chile.

Ao lermos o artigo pensamos “Se alguem já fez nós podemos fazer tambem” portanto decidimos arriscar e fomos ao centro de informações turísticas onde conseguimos tirar uma foto da dita trilha.

Mapa da Trilha do Lago del Desierto até Candelário Mansilla

Para chegar ao Lago del Desierto deve-se pedalar de El Chalten por 40 km ao Noroeste em uma estrada de rípio maravilhosa, uma pequena amostra do que teriamos pela frente na Carretera Austral.

Bosques verdes, vermelhos e amarelos com rios azuis e motanhas nevadas ao fundo.

O artigo do grupo que fez a trilha por 15 horas havia sido escrito em 2003 e ao chegarmos no Lago del Desierto a primeira surpresa, a ponte que nos atravessaria até a trilha estava destruída há quase 1 ano, só restavam os cabos de aço. Após muito papo com os policiais que fazem a proteção da ponta sul do lago decidimos que o melhor a fazer, se queriamos mesmo continuar até o Chile por este caminho, seria fazer varios cruzes pela ponte quebrada pendurando-se entre os cabos levando toda a nossa bagagem aos poucos.

Atravessando o primeiro alforge pela ponte, esse pedaço do rio tinha uns 2 metros de profundidade e a água estava a 3 graus celcius. Não passava uma agulha!

Com sucesso, após pouco mais de meia hora terminamos de cruzar a ponte. Agora mais 15 horas de trilhas nos esperavam!

Nos primeiros km de trilha os nervos começaram a piorar terrivelmente, a trilha é tão pouco utilizada que por varias vezes perdemos o caminho, varios troncos e pedras enormes caidas impediam a passagem das pesadas bikes e tentamos utilizar o sistema recomendado pelo artigo em inglês, levar primeiro os alforges e depois as bikes vazias.

Acontece que a diferença do peso das bagagens que eu e o Hubert tinham eram imensas, ele inclusive tentou me ajudar carregando uma parte do meu equipo mas para mim aquilo estava impossivel. Começei a cair varias vezes até bater em uma das pedras do sendero e realmente começei a repensar no caminho que estava fazendo, afinal preparei meu equipo para estrada, não para trilhas. Eis que já estava quase escurecendo e ouvi o barulho de um barco, larguei meu equipo e desci rapidamente pelas arvores e comecei a ascenar ao Sr. que o comandava. Prontamente ele nos ajudou! Se chama Ivor é Sul Africano e esta construindo uma belíssima pousada no meio do Lago del Desierto, todo dia ele utiliza o barco para levar os materiais de construição até a pousada. Após nosso “resgate”, Ivor propos que esperassemos por 2 dias na metade do lago (onde encontra-se sua pousada) pois ele voltaria e poderia nos levar por todo o caminho até a Ponta Norte do lago, assim não teriamos fazer esta trilha.

O Hubert decidiu por continuar já no outro dia de manhã pela trilha mesmo assim, não queria esperar pelo barco e insistiu para que eu fosse junto. Mesmo assim não estava me sentindo em uma situação confortavel, não era obrigação dele carregar meu equipo em uma terrivel trilha, alem disso tinha sido um dia muito pesado eu estava muito cansado, quase machucado preferindo assim tomar a dificil decisão de não cruzar para o Chile por este caminho e sim por 700km de pampas até Chile Chico, portanto pedi ao Ivor para me deixar na ponta Sul do Lago pois voltaria a cidade.

Nesse momento, no barco, estava pensando muito em o que significava toda aquela dificil situação e sem eu saber o Hubert sacou essa foto.

Já era noite quando cheguei de volta ao Hostel em El Chalten, após responder as perguntas de todos por que eu tinha voltado fui dormir pensando muito em tudo o que havia passado. De manhã comecei a preparar todas as minhas coisas para partir de volta a Ruta 40, o dia estava lindíssimo e com um sol muito brilhante, optei por finalmente ir fazer as trilhas do Fitz Roy.

Belíssimo dia no Parque Nacional Los Glaciares, vista do Mirador do Fitz Roy.

Passei metade do dia no parque.  A vista da foto acima é do Mirador del Fitz Roy que se chega depois de 3 horas de trilhas. Ao voltar para a cidade peguei minhas coisas e comecei a sair da cidade e 10 km depois da minha saída um INACREDITAVEL vento contra começou. Eu não podia acreditar, queria chutar tudo, a bicicleta, o equipo! Aqueles mesmos 90 km dificieis que fiz para chegar em El Chalten por causa do vento e que seriam teoricamente faceis para sair já que o vento sempre sopra vindo do Oeste, estavam agora tambem contra mim! Tentei me acalmar e pedir por carona pelo menos para cortar essa parte de vento contra e para minha surpresa, pela primeira vez na viagem ninguem me ajudou.

Muito puto da vida, olhando aquele mapa que me mostrava 700km de pampas até Chile Chico, que eu levaria mais de 1 semana para fazer, resolvi voltar tudo o que tinha pedalado e fazer os 7km restantes de trilha a partir da Ponta Norte do lago sozinho, realmente não estava pronto para desistir! A partir desse momento tudo começou a dar certo, foi incrível, andei por 20km e rumo ao Lago del Desierto até que um grupo de trabalhadores em uma pickup ofereceu uma carona sem se quer eu perguntar.

Ao fim da tarde lá estava eu de novo no lago, passei a tarde conversando com os guardas da Ponta Sul (parece que quando estamos sozinhos as pessoas são mais amistosas com você), fui convidado a comer Truta que eles tinham acabado de pescar e empanadas! Ofereceram o jardim da Gendarmeria para eu colocar a barraca. Estava me sentindo muito bem! No outro dia aguardaria o Ivor e pediria para ele me levar até a Punta Norte.

As 16:00 Ivor chegou e ao me ver já lançou: Que paso? Que estás haciendo ha cá?

Expliquei toda situação e prontamente ele disse que me levaria até a Punta Norte! Que buena gente é esse Ivor, quando a pousada estiver pronta voltarei lá com certeza!

Sem a ajuda do Ivor não chegaria a Villa O Higgins

Na Punta Norte do lago se fazem todos os tramites alfandegários argentinos. Cheguei e  já era final da tarde, deixei tudo carimbado pois sairia bem cedo no outro dia, afinal o ultimo barco do ano sairia de Candelário Mansilla no dia 24/04 e já era dia 22/04. Tinha ainda 7km de trilhas + 12 km de rípio depois da fronteira. É uma margem de erro muito pequena, se alguma coisa desse errado teria que empurrar tudo de volta sozinho + 12 km de trilhas pois o Ivor não saberia que estava precisando de ajuda uma vez que ele só navega na parte sul do lago.

Da Punta Norte pude apreciar um belíssimo por do sol das costas do Fitz Roy

Acordei as 8h no dia 23/04 peguei a bike e os equipos e comecei a empurrar. Essa trilha que parte da Punta Norte é muito melhor que a que beira o lago pois é muito mais utilizada, inclusive por muitos cavalos, então é bem assentada e marcada.

Trilha de 7km da Punta Norte até a divisa com o Chile, muito dificil mais bem mais facil que a abandonada trilha que cruza o Lago del Desierto

Após 4 horas empurrando a bike chega-se a fronteira do Chile com a Argentina, no lado chileno inicia uma estradinha de rípio de 12km até o serviço alfandegário chileno chamado Candelario Mansilla, essa estrada é basicamente descida, bem facil de ser concluída em menos de 2 horas.

Após 4 horas empurrando a bike, chega-se a fronteira.

Ao chegar as 16hrs no porto de Candelario Mansilla fui recebido com muita surpresa pelo Hubert “Man i tought i would never see you again!”, outro brasileiro chamado Ruddy (um alpinista que viaja em bike escalando os principais picos da América do Sul) e um mochileiro Israelense aguardavam o barco que chegaria pela manhã do próximo dia!

Chegada em Candelário Mansilla. Foto by Hubert

Passamos o resto do dia conversando e cozinhando, cada um fez uma especialidade para compartilhar entre os 4 aventureiros que aguardavam o barco. O porto possui um refugio livre com aquecedor a lenha, banheiro e tudo mais (o Chile é muito mais avançado nesse ponto de ajuda a aventureiros do que a Argentina).

Reunião em Candelario Mansilla

O barco chegou as 10hrs do dia 24/04 e após chorar muito com o capitão Cesar conseguimos um desconto de 20 dolares na passagem pagando USD 60 cada. O barco nessa época do ano é contratado pelo governo do Chile  para navegar por 13 horas pelos canais do lago Bernardo O Higgins atendendo a comunidades muito isoladas! A viagem é lindissima, ve-se o glaciar O Higgins e muitas montanhas banhadas pelo belo e gigantesco lago azul. É uma viagem bem turbulenta pois o vento nessa região é muito forte!

Momento história: Bernardo O Higgins e San Martin foram os heróis do Chile e Argentina respectivamente. O mesmo lago O Higgins tem o nome de San Martin no lado Argentino. Eles estão lado a lado pois lutaram juntos contra a colonização da Espanha. Por isso todas as cidades na ARG tem uma rua chamada San Martin e no CHI uma Bernardo O Higgins.

 

 

O sol já estava se pondo, haviamos parado em umas 20 comunidades quando finalmente começamos a ir em direção a Villa O Higgins (500 hab.), onde chegamos às 23hrs. Fiquei por 1 noite na Hospedagem Carretera Austral e parti em direção a Cochrane (230km de distância). Após pedalar 50km começei a ter diarréia seguida por cólicas terriveis, muito preocupado parei na estrada para pedir ajuda, que só consegui 6 horas depois. Uns homens que estavam trabalhando com construção civil em Villa O Higgins se ofereceram a me levar de volta para o hospital municipal, chegando lá o tal “hospital” estava fechado, pois possuí só uma doutoura que estava fora da cidade. Procurei um lugar para me hospedar e tive uma desagradavel noite sendo constantemente acordado pelas cólicas.

Saí as 8 horas da manhã da hospedagem e aguardei no início da estrada por algum caminhão que pudesse me dar uma carona e em poucos minutos fui muito ajudado por novos caminhoneiros chilenos que me trouxeram até Coihaique, capital da Região de Aisen.

Andar mais de 500km com ajuda de pessoas que não pedem nada em troca é algo que se pode obter em poucas regiões, essa é uma delas! Agora estou em Coihaique respousando para ficar melhor logo, assim posso seguir para La Junta e fazer os passos do Valdo Na Bike no norte da Carretera Austral.

Beijos e abraços a todos!!!

Dia 29 – 908 km – Punta Arenas, Puerto Natales, Torres del Paine e de volta a Argentina em El Calafate

Alguem ai tem uma bola de volei para eu chamar de Wilson?

Realmente acho que fiquei preguiçoso desde a minha chegada em Punta Arenas no Chile, mas gostaria de começar esse tópico dando um alerta a todos os viajantes. Se vocês forem ao Chile tomem muito cuidado com o PISCO, como as pessoas locais dizem por aqui “Pisco te mata!”. Bom vou evitar escerver muito e colocar logo as fotos.

Só aviso que o engraçadinho que tirou as fotos passou mal dentro da propria barraca e fez a maior sujeira. Eu não fui o único, só fui o primeiro! rsrsrs

Anyway finalmente saí do excelente e divertidissímo Hostel Independencia em Punta Arenas e pedalei sozinho até a proxima cidade chamada Puerto Natales, destino para todos aqueles que querem visitar o Parque Nacional Torres del Paine. Foram dois dias de pedalada e confesso que foi meio apavorante acampar pela primeira vez no meio do nada, sem ninguem por perto e ao lado de uma estrada (foto ao lado). Nunca cozinhei um macarrão tão rápido para dormir logo e continuar a pedalar no outro dia.

Chegando em Puerto Natales encontrei o camping/hostel chamado Casa Lili, 2500 pesos chilenos (aprox. 5 dolares americanos) com wifi, chuveiro quente, cozinha etc. Recomendado para quem quer gastar pouco! O único problema é que se você for acampar ficará meia hora pesquisando o melhor lugar para por a barraca já que o cachorro da foto ao lado chamado Ewoke (sim, igual ao personagem do filme Star Wars) faz suas necessidades em todos  lados e você não vai quere dobrar uma barraca cheia de bosta!

Aproveitei para descansar e fiquei coçando dois dias no hostel. Quase deixei de conhecer o lindíssimo Parque Nacional Torres del Paine se não fosse a oferta de carona dada pelo amigo australiano Dean em sua moto russa, réplica de uma BMW utilizada pelos alemães na Segunda Guerra.

O parque possuí mais de 100km de trilhas, dentre elas a mais famosa é o W que adentra praticamente todas as montanhas e glaciares do parque. Como eu estava com uma mochila terrível comprada por 12 doláres na Zona Franca em Punta Arenas optei por fazer só 2 dias de caminhada e conhecer as famosas Torres del Paine. A trilha em sí é maravilhosa mas chegar ao mais alto ponto de observação 3 horas depois de caminhadas ingremes e cansativas é uma sensação indescritível. Como é lindo tudo aqui de cima (foto da esquerda)!

Como o Dean iria continuar por 5 dias fazendo as trilhas do parque tive que pegar um ônibus por 5000 pesos chilenos de volta para a cidade de Puerto Natales. Ao chegar no camping comecei a arrumar minhas coisas para a partida de bike. Como eu sabia que seria uma longa viagem até El Calafate fui ao mercado e comprei suprimentos para os proximos 4 dias com alguma margem de erro. Enchi minhas garrafas pet de água e deixei tudo pronto para partir cedo, nunca tinha visto minha bike tão pesada, 5 dias de comida + 7 litros de água + 50kg de equipos! God Dammit!

8 da manhã o despertador toca, tomo meu café da manhã com leite em pó, sucrilhos, pão com geléia de pêssego e café e caio na estrada. Faltam 270km para El Calafate, tenho que cruzar a fronteira do Chile com a Argentina e andar entre 60 a 90 km para achar lugar com água potavel. Após 70km pedalados com o relógio da bike mostrando 19:00 e o sol começou a se por, tive que para de pedalar e montar o acampamento. A direita segue a foto do isolado local. Esses são os pampas argentinos, milhares de quilometros quadrados sem se quer uma árvore, somente pequenos arbustos de 10 cm e alguns animais como Guanacos, Cordeiros e Falcões Pelegrinos.

No outro dia acor’dei as 9 da manhã e fui lavar a louça da noite passada (essa eu aprendi com o Francês), nos acampamentos selvagens deixamos a louça suja para fora da barraca e como sempre há chuva ou condensação de água na madrugada a penela amanhecerá humidecida, permitindo a lavagem das mesmas sem gastar água potavel para beber. O problema é a falta de coragem para lavar louça com água à 2, 3 graus!

Já n metade do dia surge no horizonte um outro cicloturista! Ele é da Suiça e esta pedalando hà 2 anos pelo mundo. Da América do Sul viajará para a Africa onde começará a pedalar de volta a seu país natal.

Com o odômetro marcando 70km e o sol começando a se por novamente preparei o acampamento, fiz o clássico arroz com sardinhas e fui dormir. Na manhã seguinte fui acordado por um vento fortissímo e ao desmontar o acampamento retirei todos os espeques da barraca e a vi voar como uma pipa, tive que correr centenas de metros para alcança-la.

Aproveitei este vento que estava ao meu favor e pedalei por mais de 140 km ontem até chegar em El Calafate de onde escrevo. Nunca havia pedalado tanto! Estou meio morto até agora por isso tirei o dia para não fazer nada, só escrever no blog. Amanhã visitarei o Glaciar Perito Moreno e depois de amanhã quero começar a pedalar rumo El Chalten.

Agradeço aos familiares pelos comentários desesperados, à namorada e todos os amigos que de alguma forma estão comigo na pedalada desde o Fin del Mondo.

Dia 17 – 498 km – Cruzando o Estreito de Magalhães rumo a Capital da Patagônia no Chile

Como de costume saímos muito tarde do hostel de Rio Grande, por volta das 14:00. Na periferia da cidade avistamos o monumento em homenagem aos mortos na Guerra das Malvinas, paramos para tirar umas fotos e logo vieram os primeiros curiosos. Dessa vez eram veteranos da guerra que estavam ao lado construindo uma tenda para um festival que aconteceria em memoria aos 20 anos da guerra. Ali mesmo tivemos uma aula sobre o monumento, contada por ninguém  menos dos que estiveram lá. Tiramos fotos, contamos sobre nossa viagem e saímos em direção a Ruta 3, como sempre com muito vento contra.

Pedalamos até o sol começar a se por e encontramos a belíssima Estância Violeta, pouco menos de 30km ao norte da cidade de Rio Grande. Batemos palmas e logo saiu um senhor meio desconfiado que após explicarmos sobre a viagem nos concedeu uma casa ao lado da sua que estava em reforma, com aquecedor, fogão, banheiro. Mesmo assim preferimos montar as barracas do lado de fora pois o céu estava fantástico (é impressionante velo de um lugar pouco iluminado com tão pouca poluição, parece mais um planetário).

Saímos cedo e os ventos tinham dado uma trégua, ainda restavam 60km até a fronteira com o Chile e apertamos o passo, mesmo assim fomos alcançados pelo francês que estava hospedado no mesmo hostel em Rio Grande e passamos a pedalar em trio. Durante a pedalada avistamos aqueles extratores de petróleo old-style e na hora de chegar perto para tirar uma foto a primeira queda da bike (Dica Óbvia: Nunca saia de uma via asfaltada para o rípio com velocidade superior a 20km com uma bicicleta pesando 50kg, a chance de dar merda é altíssima) de qualquer forma só ganhei uns arranhões na mão já toda cortada pelo frio. Pedalamos por mais algumas horas e chegamos finalmente a cidade de San Sebastian da Argentina, o Chile possuí uma San Sebastian também do outro lado igualmente pequena só para os tramites fronteiriços Ganhei meu primeiro carimbo chileno e continuamos o pedal, recebemos uma informação de outros ciclistas que esta estrada possui vários abrigos então continuamos pedalando pelo rípio até acha-los, avistamos ao lado da estrada os resquícios da disputa da Terra do Fogo, alguns quilômetros de campos minados.  Chegamos ao primeiro abrigo, uma casa muito simples só com teto, sem janelas ou portas (que descobrimos depois que foram todas roubadas) e tentamos sem sucesso fazer uma fogueira pois as madeiras estavam todas molhadas então resolvemos usar os fogareiros para fazer obviamente o arroz hermoso.

Acordamos bem cedo a ponto de ver o sol nascer, numa tentativa inútil de evitar o vento que sabíamos que seria forte. Fazia muito sol mas o rípio estava todo enlamaçado por causa da forte chuva do dia passado e um vento que nunca havia visto na minha vida vinha na nossa cara. Achei que seria difícil encontrar uma situação tão ruim quanto foi a Serra dos Lima (trecho do Caminho da Fé em Minas Gerais que completei no ano passado), mas esse vento da patagônia é de matar. Foram 30km de puro sofrimento, nas subidas mais leves tínhamos que empurrar a bicicleta e nas decidas pedalávamos com muito esforço e marchas mais leves para atingir uns 6km/h. Ao avistarmos um outro abrigo optamos por pedir carona para algum caminhoneiro (nestas condições levaríamos no mínimo três dias para percorrer 100km até o Estreito de Magalhães). Dito e feito, após umas tentativas e o dia quase se pondo conseguimos uma carona com o Guilhermo, um caminhoneiro que carregava madeira para a nossa cidade de destino. Após 1 hora de conversa dentro do caminhão chegamos a simpática cidade de Porvenir, 15.000 habitantes e nos hospedamos no Hostel Central por 15000 pesos chilenos.

No outro dia fomos dar um giro pela cidade e comer o prato típico recomendado pelo Guilhermo chamado Peixe-Rei acompanhado da cerveja Austral (tudo uma delicia, prato recomendadíssimo). Às 15:00 nos dirigimos ao Ferry Boat que saí todos os dias às 17:00 rumo a cidade de Punta Arenas, do outro lado do Estreito de Magalhães. O preço é 5100 pesos chilenos e as bicicletas não pagam nada. Na saída tivemos a presença de muitas gaivotas e golfinhos.

Após 2 horas chegamos ao outro lado do Estreito e no porto de Punta Arenas avistamos as fragatas que estão participando da Regata Velas Sudamérica. Desembarcamos e fomos logo visitar o navio veleiro do Brasil, chamado de Cisne Branco. Ao chegarmos os marinheiros avistaram as bikes com as bandeiras e logo nos convidaram para conhecermos o interior do veleiro, tudo é muito lindo e novo. O barco foi construído na Holanda e entregue ao Brasil em 2000.

Conversamos muito com os tripulantes, ganhamos boné, livros da marinha e alguns até arriscaram uma volta na bike carregada.

Estou impressionado com a cidade, sinto-me muito bem aqui. As bicicletas ficam sem cadeados do lado de fora dos locais que visitamos, não se vê um lixo no chão, para qualquer coisa que você consome sejam 20 minutos de uso de internet ou a compra de um chiclete na padaria há nota fiscal, os prédios tem um estilo clássico e muito bem cuidados. Poderia morar aqui sem problemas nenhum.

Nestes dias arrisquei fazer crepes, patinar no gelo e fomos visitar os Pinguins Magalhânicos.

Estamos hospedados no Hostel Independencia, muito bom e barato. 2500 para acampar ou 5000 para os quartos compartilhados. Possui um café da manhã fantástico e muitos gatos.

Ouvindo Fica de Chico Buarque mando abraços e beijos a todos da família, aos amigos e à namorada que tanto faz falta.

Abaixo as fotos (como a galeria de fotos do WordPress é um lixo recomendo clicar nas fotos apertando a tecla Shift, dessa forma elas abrirão em outra janela).

Dia 10 – Beira da Estrada, Rio Grande e muito, muito vento

Tivemos uma excelente noite de sono em Tolhuin, dorminos na Panaderia La Union totalmente grátis. É o maior prédio da cidade, uma padaria em que o dono cedeu o andar de cima para viajantes de todo o mundo. Lá conversamos com alemães, argentinos, sul coreanos e americanos. Entre as varias historias tem a do Andrew que aos 19 anos de idade após sair do colégio resolveu cair na estrada e em 5 meses chegou de Minessota até Ushuaia de bicicleta, quase 150km pedalados todos os dias, ele me contou que em toda a sua viagem eu sou a pessoa mais nova fazendo uma cicloviagem que ele já conheceu. Seu grupo no facebook é o http://www.facebook.com/group.php?gid=157084847420, a melhor parte da conversa foi a discussão entre a história do Pescador e o Homem de Negócios. É impressionante como quase todos esses viajantes sobrevivem com muito pouco dinheiro e montam estratégias para que quando a fonte estiver secando estejam proximos a alguma cidade ondem podem arranjar qualquer trabalho temporario, fazer mais dinheiro e continuar viajando, o alemão da foto ao lado esta à 5 anos na estrada.

Após fazermos o mercado (molho, atum, macarrão, alho, cebola, maçãs) saímos. 115km nos separavam de Rio Grande e na metade do caminho resolvemos parar e fazer um acampamento na beira da estrada com direito a fogueira tão recomendada pelos amigos alemães e argentinos. Nesse trajeto vimos muitos Guanacos, Vacas, Patos e Ovelhas. É incrível o tamanho dos pastos aqui. Se pedalam por quilometros e quilometros até chegar a uma estância (fazenda).

Depois de montar o camping fiz um “macarrão a lenha”, demos um jeito de encaixar as panelas em cima da madeira e cozinhar tudo. Ficou particularmente divino (ou era a fome mesmo), matamos mais uma garrafa de vinho (peso obrigatório na bagagem que já soma quase 50kg).

A quantidade de veículos nesse trecho da Ruta 3 é muito baixo, portanto a noite foi muito tranquila.

Acordamos 10:30, preparamos o café e pedalamos por mais uns 30 km até avistarmos pela primeira vez o Oceano Atlântico, os ventos vindos do oeste foram a pior parte do trajeto mas o dia estava lindo e ouso dizer que esta foi a paisagem mais bonita que eu já ví em toda a minha vida.

No meio do caminho mais um cicloturista, já somamos 10 loucos pela Patagônia. Desta vez um engenheiro japonês, largou tudo no Japão para descer do Alaska a Ushuaia de bicicleta. Esta a 10 meses na estrada e depois começará a subir rumo ao Brasil, completando um tipo de V na América do Sul.

Chegamos ontem as 18:00 em Rio Gallegos, achamos um albergue que aceita barracas por 30 pesos com café da manhã, ainda fomos recebidos em português. Um brasileiro chamado José esta trabalhando aqui já fazem alguns meses, ele é quimico mestrado pela USP e esta fugindo um pouco da loucura de São Paulo. O albergue se chama Hostel Argentino, recomendado!

Aproveitamos que esta é uma cidade grande (maior que Ushuaia, por volta de 80.000 habitantes) para dar uma geral na roupa, lavamos quase todas as peças de roupas por 6 pesos. Hoje descansaremos e amanhã seguimos para San Sebastian, enfretar muito rípio (disseram que este trecho é o pior de todos).

Abaixo algumas fotos.